Método Graham: como avaliar empresas e ajustar ao Brasil
De onde vem a constante 22,5, por que ela pressupõe um juro que não é o nosso, e um caso da B3 que passa no filtro com folga enquanto o lucro cai pela metade.
O método Graham compra empresas por menos do que valem usando dois limites: preço sobre lucro até 15 e preço sobre valor patrimonial até 1,5. O número de Graham é só a multiplicação dos dois.
Este texto é para quem já viu a fórmula em algum site de indicadores e quer saber se ela significa alguma coisa numa bolsa com juro de dois dígitos. Mostro a álgebra por trás da constante 22,5, o que sobra dos sete critérios originais quando aplicados à B3, e um papel que passa no filtro com folga enquanto o lucro cai pela metade.
Os sete critérios do investidor defensivo
Benjamin Graham dividiu seus leitores em dois tipos, o defensivo e o empreendedor, e escreveu uma lista fechada de exigências para o primeiro. A lista é bem mais dura do que a versão popularizada em calculadoras de internet. O conjunto de ideias que ele e David Dodd desenvolveram em Columbia a partir dos anos 1920 está resumido pelo Heilbrunn Center for Graham & Dodd Investing.
- Tamanho adequado, para evitar companhias pequenas demais e frágeis a um ciclo ruim.
- Situação financeira forte: ativo circulante ao menos duas vezes o passivo circulante, e dívida de longo prazo menor que o capital de giro líquido.
- Lucro positivo em cada um dos últimos dez anos, sem exceção.
- Dividendos pagos de forma ininterrupta por vinte anos.
- Crescimento de pelo menos um terço no lucro por ação em dez anos, comparando médias de três anos nas duas pontas.
- Preço sobre lucro de no máximo 15, calculado sobre a média de lucros dos últimos três anos, não sobre o último ano.
- Preço sobre valor patrimonial de no máximo 1,5.
Repare no critério 6. Graham já suavizava o denominador com média de três exercícios. Quase todo screener brasileiro usa lucro dos últimos doze meses, o que é uma versão diferente e mais frágil do que ele propôs.
Onde nasce a constante 22,5
O número de Graham costuma ser apresentado como raiz quadrada de 22,5 multiplicado pelo lucro por ação e pelo valor patrimonial por ação. Parece uma constante com fundamento estatístico. Não é. É 15 vezes 1,5 — os dois limites dos critérios 6 e 7, multiplicados um pelo outro.
A álgebra deixa isso explícito. Comprar quando o preço fica abaixo do número de Graham equivale a:
- Preço ≤ √(22,5 × LPA × VPA)
- Preço² ≤ 22,5 × LPA × VPA
- (Preço ÷ LPA) × (Preço ÷ VPA) ≤ 22,5
- P/L × P/VP ≤ 22,5
Ou seja: você não precisa da raiz quadrada nem do LPA e do VPA separados. Basta multiplicar os dois múltiplos que qualquer site já exibe — desde que você tenha conferido esses números na fonte primária, porque agregador serve para triagem, nunca para decisão.
A vantagem prática de escrever assim é que fica visível onde a folga está. Uma empresa pode passar com P/L de 20 se o P/VP for baixo o bastante, e Graham não aceitaria isso: para ele os dois tetos valiam individualmente, não em produto.
Aplicando na B3 em julho de 2026
Peguei o Banco do Brasil como exemplo porque ele expõe o problema central do método com clareza incomum.
Em 28 de julho de 2026, BBAS3 estava cotado a R$ 20,85, com preço sobre lucro de 9,44 e preço sobre valor patrimonial de 0,62. O produto dos dois é 5,85 — passa no limite de 22,5 com folga de quase quatro vezes. Pelo número de Graham puro, o preço máximo sairia perto de R$ 40,90, o dobro da cotação.
Agora o outro lado do balanço. No primeiro trimestre de 2026 o banco reportou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões, queda de 53,5% na comparação anual, com retorno sobre patrimônio de 7,3% — o menor entre os grandes bancos, contra 24% do Itaú, 16% do Santander e 15,8% do Bradesco. A inadimplência acima de noventa dias da carteira rural foi a 6,22%, contra 2,76% um ano antes, com a linha de custeio em 10,56%. Junto ao resultado, a administração cortou pela terceira vez no ano a projeção de lucro de 2026, de uma faixa de R$ 22 bilhões a R$ 26 bilhões para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, e elevou o custo de crédito estimado de R$ 53 bilhões a R$ 58 bilhões para R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões.
Vale registrar o que o próprio balanço mostra do outro lado, para o exemplo não virar caricatura: a margem financeira bruta somou R$ 27,4 bilhões no trimestre, alta de 14,8% em um ano. A receita cresceu. O que desabou foi o resultado depois da provisão — o custo de crédito do trimestre subiu 85,8%, a R$ 18,9 bilhões. É um problema de qualidade de carteira, concentrado no agronegócio, não de encolhimento da operação.
O filtro de Graham não enxerga nada disso. Ele lê lucro passado e patrimônio contábil, e ambos estão sendo reprecificados enquanto você calcula.
E há o detalhe que contraria a intuição: usar a média de três anos, como Graham mandava, tornaria o papel ainda mais barato no filtro, porque os exercícios anteriores foram melhores. A suavização protege contra fundo de ciclo, não contra deterioração em curso. Quem confia nela para não cair em armadilha está confiando na ferramenta errada.
Nada disso é opinião sobre a ação, nem recomendação de compra ou venda. É uma demonstração de que passar no número de Graham e ter tese são coisas distintas. O exemplo também tem prazo de validade conhecido: o resultado do segundo trimestre está marcado para 12 de agosto de 2026 e vai reprecificar tanto o lucro quanto o patrimônio que entram na conta.
O 15 embutido no critério 6 pressupõe um juro que não é o nosso
Um preço sobre lucro de 15 equivale a um lucro sobre preço de 6,67% ao ano. Graham escrevia num mercado em que essa taxa se comparava de forma razoável ao rendimento dos títulos de dívida de alta qualidade da época.
No Brasil de 2026, a comparação não fecha. A Selic ficou em 15% ao ano de junho de 2025 até março de 2026, caiu para 14,5% no fim de abril e para 14,25% na reunião de junho; o boletim Focus projetava algo perto de 13,5% para o encerramento do ano. Exigir um lucro sobre preço de 6,67% quando o título público paga mais que o dobro é aceitar prêmio negativo por risco de ação.
O próprio Graham reconheceu o problema. Num seminário de 1974 ele apresentou uma fórmula alternativa que inclui um fator de correção pela taxa de juros de referência, justamente para o resultado não ficar ancorado nas condições de uma década específica. Convém saber que essa versão é um acréscimo tardio e lateral, e não parte dos sete critérios do investidor defensivo — ela circula muito mais na internet do que circulava na obra dele.
O tamanho do erro quando se ignora a correção: para uma empresa com lucro por ação de R$ 2,00 e crescimento esperado de 3% ao ano, a versão sem ajuste devolve um valor perto de R$ 29,00. Aplicando o fator de correção contra um juro de referência de 14,25%, o mesmo cálculo cai para algo em torno de R$ 8,95. Mais de três vezes de diferença, só pela taxa.
Uma ressalva de método: a fórmula original usa o rendimento dos títulos corporativos de alta qualidade, não a taxa básica. Trocar um pelo outro é simplificação minha, e joga a favor do argumento — o juro corporativo brasileiro é ainda mais alto que a Selic.
Uma adaptação coerente, e aqui já estou opinando: se você exige lucro sobre preço no mínimo igual à taxa livre de risco, o teto de P/L vira aproximadamente 7 em vez de 15. Multiplicado pelo teto de P/VP de 1,5, a constante brasileira ficaria perto de 10, não 22,5.
O que sobra dos critérios originais na B3
| Critério | Graham original | O que resta no Brasil de 2026 |
|---|---|---|
| Dividendos ininterruptos | 20 anos | Exigir vinte anos elimina toda companhia que abriu capital na onda de 2006 e 2007 em diante |
| Liquidez corrente ≥ 2 | Pensado para indústria e comércio | Não se aplica a banco, seguradora nem incorporadora com ciclo longo de estoque |
| P/L ≤ 15 | Lucro sobre preço de 6,67% | Com juro de 14,25%, o equivalente exigiria P/L próximo de 7 |
| P/VP ≤ 1,5 | Ativo tangível dominava o balanço | Perde significado em serviço, software e negócio de marca |
| Constante 22,5 | 15 × 1,5 | O equivalente ajustado ao juro ficaria perto de 10 |
| Lucro positivo em 10 anos | Filtro de sobrevivência | É o critério mais transferível dos sete |
Onde o valor patrimonial deixou de dizer alguma coisa
O critério 7 pressupõe que o patrimônio contábil se aproxima do valor econômico dos ativos. Isso valia num balanço dominado por terreno, máquina e estoque.
Hoje, três coisas quebram a premissa. Marca, software e capital humano são despesa no resultado e não viram ativo no balanço, então empresas boas nesses ativos aparecem com patrimônio artificialmente pequeno e P/VP alto. Recompras agressivas reduzem o patrimônio líquido sem reduzir o valor do negócio, inflando o P/VP. E ágio de aquisição faz o caminho inverso, inchando o patrimônio com valor que pode nunca se materializar.
Por isso o método continua funcionando melhor onde nasceu: negócio intensivo em ativo tangível, com contabilidade próxima da realidade econômica. Banco, elétrica, siderurgia, propriedade imobiliária. Em serviço e tecnologia, o P/VP informa pouco.
Erros comuns
- Usar lucro dos últimos doze meses no lugar da média de três anos, contrariando o próprio critério 6.
- Aplicar o número de Graham em banco e seguradora sem perceber que o critério de liquidez corrente foi projetado para outro tipo de balanço.
- Tratar a constante 22,5 como resultado empírico. Ela é o produto de dois tetos escolhidos por Graham.
- Ignorar o ajuste pela taxa de juros, que muda o valor estimado por um fator de três ou mais em país de juro alto.
- Confundir estar barato com estar em situação favorável. Preço baixo é condição necessária e não suficiente — a estrutura competitiva, que as cinco forças de Porter ajudam a organizar, vem antes do múltiplo.
- Comprar uma ação isolada porque ela passou no filtro. Graham desenhava o método para carteiras diversificadas — a recomendação corrente entre os seguidores dele é carregar dezenas de posições, sem convicção individual grande em nenhuma.
Perguntas frequentes
O que é o método Graham de avaliação de empresas? É um conjunto de critérios quantitativos criados por Benjamin Graham para selecionar ações negociadas abaixo do valor intrínseco. Combina exigências de solidez financeira, histórico de lucros e dividendos e limites de preço sobre lucro e preço sobre valor patrimonial, sempre com margem de segurança.
Como calcular o número de Graham? Multiplique 22,5 pelo lucro por ação e pelo valor patrimonial por ação, e extraia a raiz quadrada. O resultado é o preço máximo sugerido. O atalho equivalente é multiplicar P/L por P/VP e verificar se o produto fica abaixo de 22,5.
O número de Graham funciona no Brasil? Funciona como triagem inicial, não como avaliação. A constante 22,5 pressupõe um patamar de juros muito abaixo do brasileiro. Ajustando o teto de preço sobre lucro à taxa livre de risco atual, o equivalente ficaria perto de 10, o que reduz bastante a lista de aprovados.
Qual a diferença entre o método Graham e o método Bazin? Graham parte do lucro e do patrimônio para estimar quanto a empresa vale. Bazin parte do dividendo para definir até quanto você aceita pagar dada uma exigência de renda. Um é avaliação por ativos e resultado, o outro é precificação por fluxo de proventos.
O que é margem de segurança? É a diferença entre o valor estimado da empresa e o preço pago por ela. Quanto maior essa diferença, maior a proteção contra erro de projeção, revisão de premissa ou evento não previsto. É o conceito central de Graham e o único que atravessou intacto as décadas.
Para fechar
O método Graham é excelente como disciplina e frágil como fórmula. A parte que envelheceu foram os números: 15, 1,5, 22,5 e vinte anos de dividendos são parâmetros de um mercado, uma década e uma contabilidade específicos. A parte que não envelheceu é anterior a qualquer conta, e é a exigência de comprar com folga entre valor e preço.
Aplicar isso exige a matéria-prima certa: lucro médio de vários exercícios, patrimônio conferido e histórico longo o suficiente para o filtro significar algo. Tudo isso sai do ITR e da DFP, que são a fonte primária — e é justamente o trabalho que nenhum agregador faz por você.
Aplique isto nas suas próprias análises
O tesemetria organiza o processo que este artigo descreve: valuation com cenários explícitos, scorecard de qualidade, matriz de riscos com gatilhos e o registro das suas decisões ao longo do tempo.
Uso educacional. Este texto organiza conceitos e processos de análise. Não constitui relatório de análise, recomendação de compra ou venda, promessa de retorno ou oferta de investimento.